Em um ano cinematográfico dominado por blockbusters de super-heróis e sequências previsíveis, chega aos cinemas brasileiros A Grande Viagem da Sua Vida (título original: A Big Bold Beautiful Journey), uma fantasia romântica que promete ousadia, mas acaba se contentando com a segurança do bem-feito.
Dirigido pelo sul-coreano Kogonada, conhecido por obras contemplativas como Columbus (2017) e Após Yang (2021) , o filme reúne o carisma inegável de Margot Robbie e Colin Farrell em uma trama que mistura flertes casuais, viagens mágicas e reflexões sobre arrependimentos. Estreou no Brasil em 18 de setembro e já desperta debates: é uma pausa bem-vinda no caos hollywoodiano ou apenas mais uma road trip açucarada?
A premissa é simples e cativante, David (Farrell), um arquiteto solitário e deprimido prestes a embarcar em uma viagem para o casamento de uma velha amiga, cruza com Sarah (Robbie), uma mulher igualmente desencantada, na mesma festa.
O flerte é imediato, a química palpável, mas o destino ,ou melhor, um GPS misterioso no carro antigo de David intervém. O aparelho não aponta rotas comuns: ele os leva a “momentos importantes” do passado de cada um, abrindo portais mágicos para reviver memórias, confrontar erros e, quem sabe, reescrever o futuro.
O que começa como uma escapada romântica vira uma jornada de autodescoberta, com toques de realismo mágico que parecem com Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, mas sem o caos alucinante.
Kogonada, em seu primeiro filme sem assinar o roteiro, abandona um pouco a melancolia minimalista de seus trabalhos anteriores para abraçar o romantismo fantástico. Visualmente, é um deleite: a cinematografia capta paisagens americanas com uma geometria precisa, misturando arquitetura urbana e natureza selvagem em sequências oníricas. Há momentos de pura poesia, como quando os protagonistas interagem em cenários artificiais, quase teatrais, destacando a artificialidade da vida cotidiana. A trilha sonora, melancólica e etérea, reforça o tom de sonho acordado, e o elenco de apoio, incluindo Jennifer Grant e Hamish Linklater adiciona camadas sutis à narrativa.
Mas é aqui que a viagem perde o fôlego. Apesar da promessa de “grande, ousada e bela” (como sugere o título original), o filme patina em um ritmo deliberadamente lento, que testa a paciência do público.
As reflexões sobre coragem amorosa e arrependimentos existenciais são válidas, afinal, quem não sonha em voltar no tempo para consertar um “e se?”, mas chegam tarde e de forma pouco impactante. O misticismo do GPS serve mais como desvio estilizado do que como motor emocional, deixando a história dura e previsível, como um “boy meets girl” com toques sobrenaturais que não justificam o hype. Críticos já apontam: falta ousadia para um filme que fala tanto sobre arriscar.
Robbie e Farrell carregam o peso com maestria. Ela, como Sarah, traz vulnerabilidade e humor afiado, lembrando sua Harley Quinn mais humana; ele, como David, entrega uma intensidade quieta que ecoa O Lobo de Wall Street. Juntos, eles iluminam o que há de mais humano na trama: o medo de se conectar em um mundo de conexões efêmeras. No entanto, até esses astros parecem contidos, como se o roteiro os impedisse de decolar de verdade.
A Grande Viagem da Sua Vida é daqueles filmes que beneficiariam de se inspirar em seus próprios protagonistas: uma pitada mais de risco poderia transformá-lo em algo inesquecível.
Ainda assim, para quem busca uma pausa reflexiva e visualmente hipnótica em meio à maratona de ação de 2025, vale o ingresso. É uma jornada bela, mas não tão bela quanto merecia.
NOTA 3.5/5