Após o sucesso estrondoso de A Pior Pessoa do Mundo (2021), a expectativa sobre o novo trabalho de Joachim Trier, Valor Sentimental, era compreensivelmente alta, o diretor retorna à sua musa, Renate Reinsve, para explorar as feridas abertas de uma família ligada ao cinema, contudo, o que deveria ser um estudo íntimo sobre memória e reconciliação acaba se perdendo em uma metalinguagem fria e em um ritmo que desgasta a paciência do espectador.
A trama acompanha as irmãs Nora (Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) após a morte da mãe, o conflito central surge com o retorno do pai, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um cineasta outrora brilhante e profundamente egocêntrico que abandonou a família, Gustav quer usar a casa da infância das filhas para filmar seu “grande retorno”, um projeto biográfico que exige que Nora interprete sua própria avó, antes interpretada por EllenFanning.
O grande problema de Valor Sentimental reside na figura de Gustav, embora Skarsgård entregue uma atuação tecnicamente precisa, o roteiro falha ao tornar esse patriarca minimamente chamativo, ficamos presos a um homem cuja negligência emocional não é compensada por nenhum charme ou genialidade visível, tornando a jornada de quase 2h30 um exercício extenuante de suportar um personagem com o carisma de uma alcachofra.

O filme mergulha no “cinema sobre cinema”, há piadas com aspecto de “piadas internas” sobre festivais, referências a DVDs de diretores europeus, filme riscado e costurado sob medida para críticos de cinema que criam um mundo ao redor de si que ninguém se importa, na melhor caricatura de quem dá o nome de Nouvelle Vague a sua Cacatua e conversa com sua Samambaia chorona, para o público geral, essa abordagem cria uma barreira de frieza.

A narrativa é interrompida por cortes secos que, em vez de aprofundar a emoção, afundam mais ainda em um dramalhão que não conecta o público a simplesmente nada nem ninguém.
A sensação é de que o filme está mais interessado em sua própria técnica e em “parecer importante” do que em realmente tocar o coração do espectador.

O filme se arrasta em cenas de diálogos prolongados que frequentemente não levam a lugar nenhum, deixando todo o elenco subdesenvolvido, ao contrário da vivacidade encontrada em obras anteriores de Trier, aqui os personagens parecem estar “encenando o luto” em vez de senti-lo. A opacidade torna difícil a identificação, o terceiro ato tenta uma “arte que cura”, mas soa mais como uma auto conclamação dos cineastas sobre a importância de ser ególatra.

“Valor Sentimental” possui, sim, momentos de brilho visual, porém sem qualquer trilha sonora que sirva de base sentimental, é uma obra que sofre de excesso de bagagem, “bonito por fora, mas oco por dentro”, que substitui sentimentos reais por uma estética de prestígio e sem valor sentimental a oferecer.
Nota 1.5/5