O longa-metragem “O Sobrevivente” (The Running Man, 2025), dirigido por Edgar Wright, chega aos cinemas sob o peso da expectativa, tentando reinterpretar a distopia de Stephen King em um panorama socialmente e politicamente fraturado, contudo, apesar de um potencial temático imenso e algumas tentativas estéticas corajosas, o filme tropeça em falhas estruturais e de execução que comprometem a experiência, transformando o que deveria ser uma sátira visceral em um espetáculo que, ironicamente, peca pela falta de substância e foco.
A maior decepção reside no roteiro, que se mostra desorientado e inchado, a ambição de Wright de atualizar a crítica social presente na obra original acaba diluída por uma série de subtramas que desviam o foco da narrativa central, o filme acomoda subtramas enfadonhas que, em vez de enriquecerem o universo, apenas reduzem a urgência e a tensão do jogo de sobrevivência principal.
Personagens promissores, como os coadjuvantes interpretados por atores de peso, são subaproveitados em arcos que poderiam ter sido cortados, a tentativa de ser hiper-inteligente na sátira política moderna resulta, em alguns momentos, em um diálogo e em plot twists que parecem forçados e excessivamente convenientes, enfraquecendo a credibilidade da distopia que se propõe a criticar, o roteiro não respeita as próprias regras que constrói.

A característica marca do diretor em ditar um ritmo frenético e cheio de cortes rápidos não funciona para a densidade desta história, o primeiro ato se constrói de forma pungente, estabelecendo quem torcer e porquê torcer, mas daí em diante, o segundo ato se arrasta em exposições que deveriam construir o mundo, mas acabam sendo monótonas, o terceiro ato, onde o confronto atinge seu ápice, parece apressado e pouco resolvido, como se a montagem tivesse tentado compensar o tempo perdido.

As cenas de ação, embora tecnicamente competentes, raramente geram uma tensão palpável, diferente de seu antecessor de 1987, que mesmo caricato se mostrava ameaçador e palpável, nesse a ameaça parece esvaziada e as cenas de sobrevivência não nos fazem temer genuinamente pelo protagonista.
Para um filme distópico com alto orçamento, a identidade visual é surpreendentemente genérica, as escolhas estéticas são menos marcantes do que o esperado, o design futurista e os cenários não conseguem transmitir o senso de opressão e decadência social necessário para a história, o ambiente, em vez de claustrofóbico e desesperador, é apenas vasto e vazio, enquanto alguns efeitos visuais são impressionantes, há momentos cruciais onde o CGI se mostra limitado e até artificial , quebrando a dinâmica do filme.

Agora, indiscutivelmente Glen Powell leva o filme nas costas, a performance de Powell é o motor pulsante que transforma a distopia de ação, ele moderniza o arquétipo do “brucutu dos anos 80”, injetando uma dose de humanidade e raiva contida no papel, sua atuação é a ponte emocional que sobrevive ao sobrevivente.
É uma Releitura que falha em transformar a potência de sua premissa em uma obra coesa e impactante, o filme reflete o perigo da saturação narrativa da era de reboots e remakes, tem todos os ingredientes para ser um grande filme, mas a execução falha em amarrar as pontas, resultando em um longa que, ironicamente, é menos original e provocador do que o filme de 1987, é uma tentativa louvável de inserir uma crítica no cinema pop, mas que, ao tentar dizer muitas coisas ao mesmo tempo, acaba não dizendo nada com força.
Nota 2/5