Em um ano marcado por produções familiares que buscam equilibrar entretenimento e mensagens profundas, o filme Desenhos (título original: Sketch), dirigido e escrito por Seth Worley, surge como uma joia inventiva e emocionante.
Estreando nos cinemas brasileiros em 4 de setembro de 2025, pela Paris Filmes, esta fantasia cômica de 93 minutos é a estreia em longas do cineasta americano, conhecido por curtas premiados como Plot Device e Darker Colors – este último inspirou diretamente o filme.
Com um elenco estelar liderado por Tony Hale (Arrested Development) e D’Arcy Carden (The Good Place), Desenhos transforma o ato de rabiscar em uma metáfora poderosa sobre luto, imaginação e cura familiar, conquistando tanto crianças quanto adultos com sua mistura de humor leve, suspense criativo e efeitos visuais impressionantes.
A trama gira em torno de Amber (Bianca Belle, em uma performance reveladora), uma garota de 10 anos que, após a morte repentina da mãe, canaliza suas emoções sombrias em desenhos violentos e monstruosos em seu caderno secreto. Seu pai viúvo, Taylor (Tony Hale, perfeito no papel de um pai desajeitado e amoroso), tenta manter a família unida enquanto vende a casa, com a ajuda da sarcástica tia Liz (D’Arcy Carden). O irmão mais velho, Jack (Kue Lawrence), é o típico adolescente aventureiro, mas a dinâmica familiar é abalada quando o caderno de Amber cai acidentalmente em um lago misterioso nos bosques próximos. O que parece uma tragédia vira caos mágico: os desenhos ganham vida como criaturas de giz de cera caóticas e perigosas, espalhando destruição pela cidade. Agora, Amber, Jack e a família precisam caçar essas “criações” antes que elas causem danos irreversíveis – e, no processo, confrontar o luto que todos reprimem.
Worley, um veterano de efeitos visuais (VFX) que trabalhou com ferramentas como Adobe After Effects e Premiere Pro, brilha na construção visual do filme. Os 11 monstros únicos, inspirados nos rabiscos infantis de Amber, são deliberadamente “toscos” e coloridos, pense em entidades sombrias com olhos brilhantes e garras afiadas, mas desenhadas como se fossem de um quadro-negro , o que os torna ameaçadores sem recorrer a gore ou jumpscares excessivos.
Cenas como a perseguição no ônibus escolar ou o confronto final com “Dave”, um dos principais vilões, são tensas e criativas, evocando clássicos como Os Goonies ou Jumanji, mas com um toque moderno de Divertida Mente. O diretor descreve o filme como uma fusão de Jurassic Park e Inside Out, e faz sentido: há aventura jurássica nas criaturas soltas e uma exploração emocional à la Pixar sobre como lidar com sentimentos complexos.
O que eleva Desenhos além de uma simples aventura familiar é sua profundidade temática. Inspirado em uma história real da infância da irmã de Worley que desenhou uma cena violenta contra sua professora e foi incentivada por uma conselheira a usar a arte como válvula de escape , o filme discute o luto de forma sensível, sem ser didático.
Amber representa as crianças que “engolem” a dor, transformando-a em raiva criativa; Taylor, os adultos que fingem normalidade; e Jack, a ponte entre os mundos. As atuações dos jovens atores, especialmente Belle e Lawrence, são autênticas e cativantes, lidando com cenas pesadas de emoção sem cair no melodrama. Hale e Carden adicionam humor e coração, com diálogos afiados que incluem callbacks engraçados e piadas leves sobre a vida cotidiana.
Deixo apenas o alerta aos pais por não se tratar de um filme totalmente infantil, entrando por diversas vezes em um drama familiar.
Desenhos é um lembrete de que a arte, como um lago mágico, pode curar feridas se usada com coragem. Em um cinema dominado por blockbusters vazios, este é um sopro de criatividade genuína. Vale cada rabisco na tela e fora dela
Nota: 5/5.