Em um futuro distópico onde os Estados Unidos se transformaram em um regime autoritário, a esperança é vendida como um espetáculo mortal: a Longa Marcha, uma competição anual que recruta 50 jovens rapazes para caminhar sem parar, sob pena de execução imediata se não mantiverem o ritmo mínimo de 4 milhas por hora. O vencedor ganha o que desejar – riqueza, fama, uma vida nova. Mas, como bem resume o livro de Stephen King, publicado em 1979 sob o pseudônimo Richard Bachman, “caminhe ou morra”. Essa é a premissa brutal de A Longa Marcha: Caminhe ou Morra, adaptação cinematográfica dirigida por Francis Lawrence que chega aos cinemas brasileiros em 18 de setembro de 2025, e que já se estabelece como uma das mais impactantes traduções do terror psicológico do autor para as telas.
Lawrence, conhecido por pilotar a franquia Jogos Vorazes com maestria em distopias adolescentes, aqui abandona o espetáculo de arenas high-tech para algo mais cru e claustrofóbico: uma estrada infinita, filmada em locações geladas no Canadá, onde o suor, o sangue e as confissões fluem em tempo real. O filme segue Raymond Garraty (Cooper Hoffman, em uma estreia avassaladora que ecoa o carisma vulnerável de seu pai, Philip Seymour Hoffman), um garoto de 16 anos sorteado para a marcha, e sua improvável aliança com Peter McVries (David Jonsson, com uma intensidade que rouba cenas). Ao lado de veteranos como Mark Hamill – aterrorizante como o enigmático Major, o arquiteto dessa loucura televisiva – e nomes como Charlie Plummer, Ben Wang e Judy Greer, o elenco forma um mosaico de personalidades à beira do colapso, onde amizades nascem da exaustão e traições surgem do desespero.
O que eleva A Longa Marcha acima de meras adaptações de King é sua recusa em apelar para o sobrenatural – aqui, o horror é humano, palpável, enraizado na degradação física e na loucura coletiva de um show transmitido para massas famintas por “entretenimento”. Escrito em 1967, o romance original reflete os medos da Guerra do Vietnã e do consumismo midiático, e Lawrence atualiza isso com sutileza: câmeras de drone sobrevoam os marchadores como voyeurs modernos, enquanto o público aplaude execuções ao vivo, ecoando nossas próprias bolhas de realidade virtual e redes sociais vorazes. Não há monstros CGI; o monstro é o sistema, e ele devora devagar, passo a passo.
Visualmente, o filme é um triunfo de contenção: a cinematografia de Bill Pope (de Matrix) captura o asfalto rachado e os rostos inchados sob uma luz impiedosa, enquanto a trilha de Jeremiah Fraites (do The Lumineers) pontua os silêncios tensos com folk sombrio, evocando marchas fúnebres. Há toques de humor negro – diálogos afiados sobre absurdos cotidianos, como “Por que diabos eu entrei nisso?” – que aliviam o peso, mas nunca o dissipam. Críticos internacionais já o coroam com 95% de aprovação no Rotten Tomatoes, elogiando-o como “uma das melhores adaptações de King” e “um thriller emocional que desafia o espectador a confrontar até onde iria pela sobrevivência”.
No fim, A Longa Marcha não é só um filme de sobrevivência; é um soco no estômago sobre o custo da obediência cega e a fragilidade da juventude em tempos de crise. Sai da sala exausto, questionando: em um mundo que transforma dor em entretenimento, quem realmente vence?
Nota 5/5