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Relatório do Coaf cita repasses milionários a empresa que pagou filho de ministro do STF.

19 de março de 2026

No Brasil, algumas empresas levam anos para crescer. Outras, aparentemente, só precisam de bons contatos. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, o Banco Master e a JBS despejaram R$ 18 milhões na Consult Inteligência Tributária, uma empresa que, até então, tinha declarado faturamento de modestos R$ 25,5 mil. Um salto que, segundo o Coaf, não fecha em nenhuma conta minimamente razoável.

O dinheiro não ficou parado. Parte dele percorreu um caminho previsível em Brasília: chegou ao advogado Kevin de Carvalho Marques, de 25 anos, filho do ministro Kássio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal. Foram 11 repasses que somam R$ 281,6 mil. Tudo, segundo ele, absolutamente legal e fruto da advocacia tributária.

E pode até ser. O problema é que, quando o volume de dinheiro cresce mais rápido que a própria empresa que o recebe, a explicação técnica começa a soar como detalhe burocrático diante do contexto político. O próprio Coaf classificou as movimentações como “incompatíveis com a capacidade financeira” da consultoria. Em tradução direta: o dinheiro entrou, mas a lógica não acompanhou.

A Consult Inteligência Tributária virou, na prática, um funil de milhões em um intervalo curto de tempo. R$ 18 milhões concentrados praticamente na totalidade da receita da empresa no período. Para qualquer padrão de mercado, isso não é crescimento, é um evento fora da curva. Para os órgãos de controle, pode ser algo ainda mais sensível.

Enquanto isso, o Banco Master, ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, e a JBS seguem com a versão padrão: contratação de serviços de consultoria tributária. Uma justificativa que, no papel, resolve. Fora dele, levanta perguntas óbvias sobre critérios, valores e, principalmente, conexões.

O roteiro ganha uma camada adicional quando entra em cena o histórico recente. A Polícia Federal encontrou mensagens entre Vorcaro e o ministro Nunes Marques em celular apreendido. Nada demais, segundo fontes: conversas “superficiais”. O próprio ministro afirma não ter proximidade e diz não se lembrar dos diálogos. Em Brasília, esquecer é quase uma estratégia institucional.

A cronologia também ajuda a contar a história. A empresa foi aberta em 2022, cresceu de forma meteórica e viu seu fundador sair da sociedade em novembro de 2025 levando R$ 13 milhões em lucros. Meses depois, em março de 2026, ele retorna ao negócio. Um vai e volta que, isoladamente, poderia passar despercebido. Somado ao restante, vira peça de um quebra-cabeça mais complexo.

No meio disso tudo, surge um movimento curioso: a defesa de Vorcaro tentou levar o caso ao STF sob relatoria do próprio Nunes Marques. Não conseguiu. O processo acabou nas mãos de outros ministros, passando por Dias Toffoli e André Mendonça. Às vezes, o sistema ainda se protege de coincidências constrangedoras.

Formalmente, cada peça dessa engrenagem tem sua explicação. Consultorias existem, advogados recebem honorários, bancos contratam serviços e empresas pagam por suporte tributário. Tudo dentro da legalidade declarada. O problema começa quando o conjunto dessas peças forma um desenho que ninguém consegue ignorar.

No fim, o caso escancara um padrão que se repete com frequência no país: empresas que crescem rápido demais, dinheiro que circula rápido demais e relações que, oficialmente, não existem mas que, curiosamente, sempre aparecem nos momentos certos. O Coaf chama de inconsistência financeira. Em Brasília, isso costuma ter outros nomes.

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