No Brasil, a política muitas vezes se parece com um jogo onde as regras são feitas para favorecer quem já está no poder. Uma norma interna do Senado Federal revelou que os senadores podem gastar recursos públicos sem necessidade de reembolso. É como se possuíssem um cartão corporativo vitalício, blindado e sem limites, onde qualquer gasto pode ser registrado como “atividade parlamentar”.
Enquanto isso, ex-senadores e seus dependentes continuam a desfrutar de privilégios que a maioria dos brasileiros jamais veria. Desde 2016, mais de R$ 16 milhões foram gastos em saúde médicos, dentistas, fisioterapia para ex-parlamentares e familiares. Entre os maiores beneficiados estão Lavoisier Maia Sobrinho (R$ 892 mil), Marco Maciel (R$ 576 mil) e Maria Therezinha Santiago Calmon, viúva de João Calmon (R$ 691 mil). Valores quase inalcançáveis para qualquer cidadão comum, que precisaria parcelar ou recorrer a planos privados caros.

O salário de um senador, a partir de fevereiro de 2025, é de R$ 46.366,19 mensais. A isso somam-se verbas de gabinete, auxílio-moradia, cotas para passagens aéreas e publicidade. Com essas cifras, uma harmonização facial, implante dentário ou sessões de fisioterapia podem ser cobradas do contribuinte sem esforço burocrático. Para o cidadão comum, cada procedimento representa meses de parcelas e juros de até 12% ao mês; para o senador, basta um despacho interno.
Os números são impressionantes: só em 2020, o Senado gastou R$ 5,3 milhões em saúde de ex-senadores, quase o dobro de 2019; e em 2021, até abril, já haviam sido pagos mais de R$ 2,3 milhões. Segundo levantamento do Metrópoles, esses valores representam cerca de 20 vezes mais do que a Câmara. A diferença evidencia o privilégio institucionalizado: gastos irrestritos, sem necessidade de prestação de contas detalhada.
Quando a mordomia vira despesa oficial, o contraste com a realidade do brasileiro é brutal. O trabalhador enfrenta filas, planos caros e atrasos; o senador, com um simples despacho, garante atendimento integral, seja para procedimentos estéticos, cirurgias dentárias ou fisioterapia. Até viagens de executiva podem ser contabilizadas como “atividade parlamentar”, transformando luxo em obrigação oficial.
Essa realidade demonstra que, para o Senado, existe um universo paralelo. De um lado, cidadãos comuns equilibrando boletos, consultas e cartões recusados; do outro, parlamentares e ex-parlamentares com cartão corporativo vitalício, acesso irrestrito a planos de saúde e R$ 16 milhões pagos sem contrapartida, enquanto normas internas blindam cada gasto.
O casamento entre a norma que libera despesas e os valores milionários pagos em saúde deixa claro o funcionamento do sistema: o contribuinte paga, o senador recebe, e o Estado não vê retorno. Entre harmonizações faciais, implantes e fisioterapia, o cidadão observa de longe, enquanto o Senado transforma mordomias em despesas oficiais, sem limites ou contrapartidas.
Colaboração: Katia Maranhão
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